Cátia Arnaut: “Por mais tempo que passe, parte de mim será sempre angolana e um pedaço do meu coração estará sempre cá”

Tem 40 anos, é uma portuguesa de coração angolano, apaixonada por fotografia, e decidiu embarcar numa experiência que a marcou para sempre: colocar a mala às costas e conhecer o mundo, com a sua “companheira favorita”, a filha. A aventura resultou num livro, “De Mala às Costas”, onde descreve as suas vivências no Dubai e em Angola. Apesar dos vários desafios enfrentados durante a sua jornada, aconselha a experiência e descreve-a como enriquecedora. Recorda com saudade a “família de coração” que deixou no nosso país, e assume que as experiências intensas que viveu fizeram da sua estadia em Angola o período mais feliz da sua vida. Cátia Arnaut, que encontrou no nosso país a oportunidade para viver intensamente a sua paixão pela fotografia, admite ainda que a estadia marcou-a de tal forma que, para o futuro, voltar a Angola é um plano certo.
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Cátia, em primeiro lugar fale-me de si… Quem é a Cátia? Onde nasceu e cresceu, como foi a sua infância, os seus estudos, a sua idade...

Tenho 40 anos, nasci e cresci em Portugal, Lisboa, sou formada em Economia, tenho um MBA em Gestão e Planeamento Estratégico, um Mestrado em Gestão por Projectos e em 2015 ganhei o prémio de Gestor de Projecto do ano pelo PMI Chapter Portugal. Tenho uma filha de nove anos, que é o sol da minha vida, gosto de fotografar, fazer desporto, de dançar, ouvir música e ler.

Ainda este ano lançou o livro “De Mala às Costas”, que retrata experiências e aventuras vividas no Dubai e em Angola. Tem algum episódio no nosso país que a tenha marcado? Porquê?

Não há um episódio em particular que possa destacar. São muitos! Viver e trabalhar em Angola durante três anos e meio foi uma experiência maravilhosa, muito enriquecedora e de muito crescimento pessoal e profissional. Tive a oportunidade de fazer muitos amigos e de com eles estabelecer laços muito profundos, criei uma família aqui, uma família de coração.

Qual foi o maior desafio que teve de enfrentar desde que colocou a mala às costas?

Há vários desafios que qualquer pessoa enfrenta quando se torna um expatriado. Mais ainda quando o faz com uma criança pequena. Creio que a maior lição que aprendi é a do desapego… Aprendemos que de facto são poucas as coisas que nos são essenciais, para termos alguma estabilidade, e prosseguirmos com o nosso dia-a-dia. A mudança e a adaptação são também lições muito importantes, cada vez mais necessárias nos nossos dias. Aprendemos a não fazer planos a longo prazo e a vivermos mais o dia-a-dia. É duro no início mas de certa forma muito libertador também.

E o que a motivou a fazê-lo? Recomenda-se a aventura?

Foi um pouco o desejo de querer crescer profissionalmente, o que em Portugal dificilmente conseguiria fazê-lo. Surgiu a oportunidade para o Dubai e lá fomos, eu e a minha pequenina, de então quatro anos.

Recomendaria a todos fazê-lo na medida em que nos alarga, quer queiramos quer não, os horizontes, convivemos com outras culturas e aprendemos com elas, aprendemos que não há um certo e um errado, há formas diferentes de olhar e pensar sobre uma mesma realidade, motivadas por diferentes crenças com as quais crescemos, ou mesmo devido à base teológica que nos foi incutida. Mas não é definitivamente para todos. Conheço alguns casos de pessoas que não conseguiram resistir à pressão de estar só, longe da família e dos amigos, sem suporte, numa cultura estranha. Para mim foi particularmente duro os primeiros quatro meses e pensei várias vezes em desistir e voltar a Portugal. Foi a minha pequenina que me deu forças para continuar e tentar superar o desafio.

As diferenças culturais foram um choque? Como foi lidar com elas?

No Dubai as diferenças culturais são muito grandes. Os Emirados são um país maioritariamente muçulmano e, apesar do Dubai ter o regime mais livre de todo o mundo muçulmano, muito pela elevadíssima quantidade de expatriados residentes, o papel da mulher não é o mesmo do mundo ocidental. Quando a mulher ainda por cima é mãe de uma criança, divorciada, a ocupar uma posição de liderança sobre homens locais.... o desafio aumenta.

Em Angola pelo contrário não. Para uma portuguesa, especialmente alguém que ouviu falar de Angola em casa toda a sua infância, pois os meus avós maternos e paternos estiveram cá, os meus pais também e estudaram ambos no liceu Salvador Correia, este país é uma extensão de casa. De certa forma era como se estivesse programado no meu ADN fazer aqui uma paragem.

Um ano no Dubai e três anos e meio em Angola… Porquê Angola como destino?

Angola surgiu no percurso profissional, um desafio que me foi proposto quando estava no Dubai e que decidi aceitar.

E porquê três anos e meio? O que deu para conhecer do país nesse espaço de tempo? Passou por todas as províncias?

Três anos e meio foi o tempo que estive a desenvolver um grande projecto para uma empresa de referência de Angola. E claro que fui aproveitando alguns buraquinhos livres para conhecer este país lindo. Estive em Malange, Benguela, Lobito, Catumbela, Lubango, Namibe, Uíge e Cabinda e estive no Ebo. Gostaria de ter conhecido muito mais, de Cabinda ao Cunene, e há províncias, em particular como o Huambo, que tive pena de não conhecer, mas a falta de tempo minou esse plano.

Depois de três anos e meio a viver em Angola já se sente angolana ou ainda é só uma “alfacinha de gema”?

É muito curiosa a tua pergunta... E difícil de responder. Quando regressei a Portugal passei por um período difícil em que me sentia apátrida, sem raiz, como se não pertencesse a lado nenhum. No livro menciono isto precisamente, e até baptizei esta sensação como o “síndrome do retornado”, que creio todos os expatriados sentem, com maior ou menor intensidade, muito em função da integração que tiveram no país de onde vieram ou onde estiveram.

Em muitas situações sou mais angolana que portuguesa. Na verdade, foi aqui que senti que podia ser eu verdadeiramente, sem que isso fosse causa para desaprovação ou não aceitação. E acho que serei sempre assim, agora consciente de que o problema não é meu mas das pessoas e cultura que me rodeia. Noutros contextos continuarei a ser portuguesa, que afinal é a cultura na qual cresci e vivi a maioria da minha vida.

Tenho a certeza que, por mais tempo que passe, parte de mim será sempre angolana e um pedaço do meu coração estará sempre cá.

Quando lê o que escreveu sobre Angola, o que lhe deixa mais saudade?

Os amigos, as emoções, os desafios que vivi... Foram experiências muito intensas, irrepetíveis, e que ficarão para sempre comigo como o período mais feliz da minha vida.

Para além das aventuras que descreve no livro há ainda todo um registo fotográfico, que vai acompanhando a sua viagem pelo mundo. A fotografia é um hobby ou algo mais?

A fotografia é mais do que um hobby, é uma paixão. E foi precisamente em Angola que tive espaço e oportunidade para a viver, como sempre, intensamente. Tive o privilégio de integrar o projecto VêSó e de participar activamente não só nas saídas mas também no desenvolvimento deste movimento maravilhoso, que já dá passos internacionalmente, nomeadamente em Portugal.

Como e quando surgiu o interesse pelo mundo dos clicks?

Comecei a fotografar muito cedo, talvez aos oito anos. Mas foi em Angola e com o projecto VêSó que verdadeiramente cresci, tanto técnica como esteticamente.

O que a inspira a fotografar? Destaca algum artista ou fotógrafo como sua influência pessoal?

Uuuuuiiiiii!!!!! Gosto de fotografar emoções. É a emoção de qualquer coisa que vejo que me faz clickar. Mas tenho um prazer especial em fotografar pessoas.

Há variadíssimos fotógrafos que admiro, como Sebastião Salgado, Annie Liebovits ou Cartier Bresson. Mas há uma série de fotógrafos que conheci em Angola que admiro muitíssimo e que me inspiram diariamente: Germano Miele, Nuno Andrade, João Carlos Monteiro, Luís Aureo, Ivan Lopez, Wasso, Osmar, Luís Querido, Carlos Gomes...

Que tipo de fotografia mais gosta de fazer?

Acima de tudo gosto de desafios e de variar. Não gosto de repetir um registo. Vicia o olho, torna-nos preguiçosos, e perdemos o estímulo, porque já conhecemos a realidade do que vamos ver e fotografar. Preciso de desafios, de coisas diferentes para poder sentir, abrir o coração e deixar a emoção falar mais alto.

O que é que pretende fazer com a sua fotografia? Definiu algum objectivo?

Nada em particular. Quero continuar a obter o que a fotografia me dá: muito prazer, muitas gargalhadas e amigos. Quero melhorar a minha técnica e ainda tenho um longo caminho a percorrer. Quero continuar a aprender.

Pela sua diversidade e riqueza, acha que Angola é um destino de excelência para os amantes de fotografia?

África é um destino por excelência para fotografar. Há contextos de natureza que só se encontram neste continente e em mais nenhum ponto do mundo. Angola poderia ser um destino de excelência para os amantes de fotografia pelas paisagens únicas que tem, mas a dificuldade nas deslocações e estadia, para além dos custos associados, nomeadamente de entrada, tornam outros destinos em África mais atractivos.

A máquina fotográfica acompanha sempre um dos seus hobbies, viajar, assim como a sua filha. Como é andar de mochila às costas pelo mundo com uma criança? Os desafios são maiores?

É uma questão de disposição e vontade. Naturalmente que com uma criança é necessário alguns cuidados adicionais, mas é com ela que prefiro viajar. É a minha companheira favorita! Partilhamos tudo e ela tem um olhar muito especial sobre o que vivemos. Adoro também a capacidade de lhe proporcionar experiências diferentes, e a expor a contextos diferentes daqueles a que ela está habituada todos os dias. Creio que é assim que verdadeiramente aprendemos e nos tornamos ricos enquanto seres humanos.

E para o futuro quais são os planos? Voltar a Angola ou novas aventuras? Qual o próximo destino?

Voltar a Angola certamente, mas gostava também de iniciar uma exploração por um continente que conheço pouco, a América do Sul. Destino já tenho dois ou três em vista mas só mais para o final do ano saberei exactamente o que vou fazer.

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