Estamos em Angola!

A boa Angola que eu vi


A boa Angola que eu vi

Cláudia Rodrigues Coutinho

Cláudia Rodrigues Coutinho, de 40 anos, é casada e tem 2 filhos. Deixando a vida que tinha, em Portugal, experimenta, desde Setembro 2015, a dimensão de uma família lusa, a viver, em Angola.

Umas mãos finas, delineadas a ossos, elevavam-se sobre o vidro do carro: acompanhavam o corpo frágil de uns olhos, cor de mel, pequeninos. As pálpebras pesavam-lhe o olhar nítido, luzidio.
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Era uma voz arrastada: "Eu só quero uma sardinha. Por favor, dá só dinheiro para uma sardinha, gritava à janela, aquele rapaz, alto e magro, de cabelo preto, raso, e pele batida; chinelos de enfiar no dedo - que lhe ficavam pequenos - calças de ganga, justas, e t-shirt verde, sporting, um tamanho abaixo do seu.

Os outros meninos, que aguardavam à porta do restaurante com os alguidares de quitetas (bivalve, tipo conquilha, muito apreciado em Angola), que tinham trazido da praia Morena, para vender, estavam boquiabertos, de silêncio, de olhares suspensos sobre o rapaz que gritava assim.

Não sei o que eles pensavam; a mim, o rapaz das mãos finas, trazia-me aflição; pois, talvez, lhe tenha notado a ávida vontade, fácil e tentadora, de não sentir a vida.

Não tínhamos comida para lhe dar: momentos antes, enquanto saímos do restaurante, vimos, os meninos bons a comer esparguete, das sobras - que era pouca. O meu filho ficou suspenso naquele momento a mirá-los; foi ao carro procurar a mochila e tirou a comida que havia; chegou-se e distribuiu pães com manteiga e bolachas maria pelos seus amigos-criança. "Têm fome e querem comer”, disse ele, parado, e feliz, enquanto os meninos faziam uma divisão - do que havia - graciosa de se ver.

Demos o dinheiro ao rapaz: sabíamos que, talvez, não era para a sardinha. Talvez fosse procurar o que o fazia aliviar das dores da vida que não queria.

Seguiu rua fora, na direcção do sol sábio de Benguela, sob passos, atrapalhados, incertos de encontrar um destino.

O rapaz dos dedos finos que falava gíria, e gritava como um louco, remetia os meninos para o silêncio das pessoas boas que acreditam e precisam ser felizes.

Os seus rostos contraíam-se numa representação de acato - com os olhos distraídos de pestanejar - enquanto o seguiam.

Era curioso observar o contraste do sossego dos meninos bons, dos olhos limpos, de corações leves; e os modos desnorteados do rapaz dos olhos frios, que abrigava um coração vazio.

Estávamos em Benguela, de fim-de-semana, em registo de passeio – o que, por breves instantes, nos tinha feito esquecer de Angola.

Sob a luz daquele sol, de Benguela, fitei o rapaz perdido - da sardinha - e os meninos bons - das quitetas - distingui Angola.

A Angola que existe na medida do que desejamos que ela seja. Que se debruça sobre o que o nosso coração se fixa - como os corações, leves, dos meninos bons ou o coração, vazio, do rapaz perdido.

Faz, mais ou menos, um ano e meio desde a primeira crónica, “(Sobre)Viver em Angola”- que regista a minha chegada a este país novo.

Obtive muitas respostas e reacções de (des)conhecidos e amigos - novos, e os de sempre - que me acrescentam e fazem de mim uma pessoa mais feliz.  

Encontrei, desde daí, realidades, e partilhas, de vida que me ajudaram a apadrinhar esta Angola-nossa, controversa e contraditória.

Respondo a alguns pedidos de impressões, e opiniões, sobre uma possível mudança para Angola; recebo testemunhos, e a experiência, de quem cá vive, ou viveu; e ainda recebo sugestões de visitas a outras províncias, fora de Luanda, a fim de confirmar a extensa dimensão da beleza natural, ímpar e diversa, deste País.

Devo agradecer, de forma muito modesta, aos que me acompanham nesta passagem de dúvidas - e certezas - que Angola, e a condição de emigrante, abona.

É verdade: viver em Angola não é exacto; sabemos dos bons sentimentos e dos seus avessos; não há um sempre, um justo ou um certo; há um possível, um talvez e um incógnito.

Com Angola vem a questão da saúde. É a primeira preocupação. O risco da malária, do dengue, tifóide, febre amarela, tuberculose, entre outras doenças; hospitais, e meios, em falta. Colocamos repelente, temos cuidados de prevenção, levamos vacinas e ainda assim vivemos no risco; rezamos para que nada aconteça, de grave, na nossa saúde, na saúde dos filhos , familiares e até professores, e educadores, dos nossos filhos.

As dificuldades de divisas são uma realidade; a falta de luz e de água: também; o gerador e o tanque de água são, por isso, peças essenciais nas vidas de cá (já entendo tanto de geradores como de maquilhagem e prezo que esteja sempre a funcionar bem).

O caos do trânsito é mais que certo: as regras e os semáforos escasseiam; na estrada, o desgoverno das Hiace, azuis e brancas (candongueiros: são o transporte das pessoas), e das motas, comandam a marcha - muitas vezes prefiro fechar, simplesmente, os olhos, e travar, no lado do pendura: seja o que Deus quiser.

Não se anda a pé, sem reservas, em qualquer zona; e não batemos, simplesmente, a porta para beber um café. A vida faz-se em casa ou em casa dos amigos.

Esbarramos, e encaixamos, organizações, e formas de estar, bem divergentes das nossas. Vivemos intensos níveis de emoções: umas vezes muito boas, libertadoras e abrangentes; e outras muito más, acutilantes e dificeis.

Nas ruas de Luanda é fácil desvendar rostos e movimentos de uma vida resistente.

Os candongueiros aparecem, a toda a hora e nunca se desviam ou param; estacionam onde lhes apetece e somos nós que os temos de os contornar.

As mulheres zungueiras - mães trabalhadoras corajosas - andam, ou ficam sentadas nos passeios, de alguidares à cabeça, ou no chão (muitas, com os filhos presos às costas pelos lindos panos africanos). É impressionante o que elas conseguem carregar à cabeça: fruta, legumes, bolos, peixe, bolachas, mercearia.

Os roboteiros são os senhores carga que andam com os carros de mão, feitos com uma roda de um carro, ou mota, sobre uma estrutura de madeira,  que transportam as cargas pesadas, e volumosas, das pessoas.

O vendedor ambulante passa o dia inteiro no meio da estrada, por entre as filas justas do trânsito e as razias perigosas das motas e carros: vendem águas geladas, cucas, pipocas, ferros de engomar, tapetes, pilhas dos relógios, brinquedos, ténis, roupa e tudo o que se imagina e não imagina.

Os lavadores de carro são muitos, e jovens: lavam e limpam os carros sujos do pó, de Luanda, com aprumo e dedicação - é o sustento.

Os senhores polícias estão bem presentes nas ruas e multam por infrações reais, ou nem por isso, que se pode, por vezes, resolver com uma gasosa.

Jipes, e carros, circulam de vidros fumados e fechados.

As ruas são o coração da vivência do povo. Nas estradas empoeiradas, e desorganizadas, chegamos a encontrar buracos capazes de engolir carros; os condomínios modernos, vedados, traçam linhas de alterações de realidades; os musseques existem em escala; o povo contorna os dias que passam..

Quando nos pedem opiniões sobre Angola não há uma resposta certa. Cada um deverá saber das suas capacidades de adaptação, compreensão e autocontrolo. É mesmo disso que se trata: criticar e lamentar-se é o que fazem todos; entendimento e despreendimento, só alguns.

Em dias tristes, e frustrantes: apetece desistir; em dias eufóricos, e revigorantes: apetece continuar, com o peito bem cheio de mundo e de ar.

Depois de atestar esta realidade - incompreensível para alguns e desafiadora para tantos - confirmo, na primeira pessoa, que se pode fazer uma vida em Angola (esta questão: colocam-ma muitas vezes).

Há um grande tabu sobre Angola. Eu sou prova disso. Quando vim para cá estava formatada para uma série de medos, e julgamentos feitos, que fui desmontando aos poucos;  e encontrei outros que encaro, e lido, diariamente.

Descobrimos pessoas admiráveis que não sabíamos existir, pessoas novas, amigos nossos. Somos livres de constrangimentos e interesses; conversamos em modo de abertura de espirito e partilha – que nos faz vibrar, e voar, pelo mundo que passamos a saber realizável em qualquer parte. Passamos a fazer parte de vários lados.

É muito comum almoçarmos, ou jantar, em casa do amigo ou do amigo do amigo. Quando convidamos alguém é provável que apareça mais um amigo do amigo - que passa a nosso.

Os restaurantes: existem para todos as preferências: sushi, internacional, italiano, hambúrgueres, tipico português ou angolano, entre outros; os supermercados estão, de um modo geral, abastecidos;  nem sempre se consegue encontrar tudo o que queremos num só; temos de ir a outros; acaba-se por encontrar e são caros.

As praias existem para todos os gostos e durante todo o ano; o bom tempo faz parte: as temperaturas raramente baixam os 20ºC (não há invernos rigorosos, para ninguém).

A comida angolana é boa: a banana nacional, as mangas, o mamão e o ananás, as cocadas, o maravilhoso peixe e marisco, a moamba e o funge (que não amo), o mufete, o óleo de palma com feijão e outros sabores quentes e deliciosos.

Encontramos um povo simpático e afável: o Angolano é, no geral, educado, alegre, bondoso e muito respeitador das pessoas mais velhas. Os mais velhos, ou kotas, estão no topo da hierarquia do respeito e do cuidado das pessoas de Angola. Vivem um grande espirito de família e de união -  que é imperturbável.

As festas, essas, nunca faltam. São regra. Impera a boa disposição e o bom humor no Angolano (que é, na minha opinião, um sinal de inteligência deste povo, como forma de superar as restrições que vivem).

São resilientes e alegres, como nunca. Convivem com o pouco e ainda assim não desistem do muito; inventam e seguem em frente, aguardando melhores dias.

É uma grandiosa lição de vida. No meio da falta há sempre uma gargalha ou um sorriso que disfarça e enche o vazio.

Acabo de participar na récita da Escola Portuguesa de Luanda dos meus filhos (cheguei a casa e apeteceu-me acrescentar este parágrafo). Lá, cantei o Hino de Angola, com emoção;  no Hino de Portugal refleti uns olhos húmidos, sentidos de orgulho; bati as mãos com toda a força e de coração ao rubro, cantei, alto, Portugal.

Tanto subiram ao palco os ritmos tradicionais da Terra de Miranda, os Pauliteiros, como o eletrizante Kuduru (dança e género musical, estilo house africano em que se misturam elementos eletrónicos com o folclore tradicional, feito pelo povo mais pobre de Luanda) ou as alegres Marchas Populares. Cantámos as marchas e dançámos, efusivamente, o semba ou o kuduru.

Foi um encontro, feliz, de ritmos, de músicas e de vivências. Professores, alunos e pais - Portugueses e Luso-Angolanos – celebraram, assim, estes laços - bem vivos - tão bons de se sentir, entre Angola e Portugal

As contínuas sugestões que continuo a recolher para visitar as outras províncias, como Benguela, Huambo (nome colonial: Nova Lisboa), Lubango (Sá da Bandeira), Kalandula (Duque de Bragança) ou Namibe (Moçâmedes), da parte dos  meus amigos leitores do VerAngola - bem como de algumas pessoas amigas, de Santarém, que estiveram em missão, ou viveram, cá, na era colonial - despertaram-me uma grande curiosidade, e vontade, de conhecer as desmedidas realidades deste país - fora de Luanda.

Nunca tínhamos saído da província de Luanda e, aproveitando o meu aniversário dos 40, começámos pela bonita província de Benguela - que fica no litoral centro de Angola - e as cidades do Lobito, Benguela e Baía-Farta.

Assim que saímos do aeroporto internacional da Catumbela – estrutura nova e ampla – em estrada asfaltada e duas vias em cada sentido, saltam à vista as vivas plantações de banana; a bonita, e importante, linha dos caminhos-de-ferro de Benguela; os imensos bairros de casas, minúsculas, coladas à paisagem (morros); muita gente na estrada. Conheci o importante porto do Lobito; as singelas igrejas da época portuguesa, casas e edifícios coloniais, lindos, as identificações antigas das empresas portuguesas, que testemunham um outro tempo; o mangal com flamingos cor de rosa.

As praias despertam os sentidos; na Restinga, Baía Azul ou Morena dei com uma avassaladora união de azuis, do céu e do mar,  que me fez velejar num mar que leva e trás uma harmonia, e silêncio, pujantes. A areia branda, e branca, explora, e afirma, a beleza de um azul sem fim.

Nesta pequena viagem, senti, e vi de perto, pedaços da história de tantos portugueses que por ali passaram. Espantei-me no ideal de um tempo que passou e ficou nas suas tamanhas memórias.

Dividida entre 18 províncias, Angola estende-se por diferentes experiências: as diversas praias virgens intermináveis, as florestas, as savanas, as áreas desérticas e de estepe; e as diferentes tribos, línguas, culturas e modos de vida.

A arte é unânime. A música é lei. As festas são ordens e indispensáveis. Os ritmos e movimentos do semba, quizomba, kuduru e outras melodias, e danças, despertam a alegria contida.  

Defrontam-se lutas desleais com a vida, pessoas aflitas, meninos sem tecto, mulheres sofridas, crianças-cansadas; e e resolvem-se pessoas boas, inteligentes, lutadoras, festeiras, alegres e corajosas.

Na última vez que estive em Portugal, uma grande amiga confidenciou-me que o marido lhe contou (após uma breve visita a Luanda com que nos presenteou) que eu corro no pátio, minúsculo, da minha casa. Ela disse-me que não parou de pensar nisso e, desde então, valoriza mais o espaço, imenso, disponível, que tem - e não ligava.

Quando eu explico a alguém que corro entre quatro paredes do meu quintal: faço-o com a felicidade de conseguir transformar um, suposto, obstáculo numa singela solução que me dá o que eu preciso.

O que no início parece difícil, quase impossível, passa a capaz: é o maior sentimento de Angola.

Depois de 2 anos a viver em Angola, e com a (minúscula) valia de conhecer mais um pedaço da terra vermelha, deixo-vos a razão dos que ficam e não desistem de sonhar o que não se vê.

Deixo-vos a imagem de uma Angola penetrante e sedutora.

De uma terra autêntica, festeira e melodiosa. Triste, incerta e agridoce.

De um país infantil e distraído; misterioso e forte.

Tão poderoso e fausto; como cruel e árido.

É intenso e é tentador.

Angola é a arte da alegria e da tristeza. É a emoção em pessoa.

É o tudo e é o nada.    

Enquanto escrevi este texto, fui saindo do caminho das primeiras impressões. A confiança do sol dourado, daquele dia, em Benguela, envolveu-me de clareza.

Certeza por certeza, melhor a do sonho que atesta o que somos, na calma da esperança e renúncia da fantasia.

Vestem roupas gastas, chinelos pequenos, correm contra o tempo, sabem o pouco e procuram o melhor; combatem os dias; esperam. Ainda assim, os meninos-homens-bons-que-sonham-e-sorriem brilham no escuro, como verdadeiras jóias de corações preciosos.

É a boa Angola que eu vi.

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