Estamos em Angola!

O passeio na Baía de Luanda, no dia de Natal...


O passeio na Baía de Luanda, no dia de Natal...

Cláudia Rodrigues Coutinho

Cláudia Rodrigues Coutinho tem 39 anos, é casada e tem dois filhos com 10 e 6 anos. Mudou-se para Luanda com a família há pouco tempo e deixou o seu emprego para começar do zero. Decidiram viver fora de Portugal e experimentar a dimensão de um emigrante em Angola.

Naquele dia, apareceu diferente: um sol, orgulhoso, exibia, como nunca, a luminosidade dos seus raios fulgurantes e a abundância de um calor apressado.
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A sala estava meio desguarnecida: faltavam os ajuntamentos de papéis de embrulho e de sacos que - habitualmente - faziam parte da decoração da nossa casa, naquelas manhãs.

O calor e cores (bem vivas) iam substituindo, aos poucos, os traços e a matiz do nosso quadro habitual.

Estávamos a despertar na vivacidade de um dia radioso (de um dia especial): o dia que nos apresentou o Natal de Angola.

As crianças acordaram eufóricas com os skates recebidos na véspera e só pensavam em ir para a Baía de Luanda desfrutar dos seus novos presentes e do bom tempo que, através do brilho daquele sol quente, tomava o lugar das memórias do frio cinzento de Portugal.

Depois de um bom almoço em casa de uns amigos fomos, então, à Baía de Luanda. Uma baía que, naquele dia, se apresentava especialmente animada num imenso colorido de gente e de movimento.

Esta parte da cidade baixa é enquadrada pela Ilha do Cabo e pelo bonito porto que ali mora. É uma baía lindíssima. Podemos acompanhar o azul de um mar sereno e platinado, salpicado por pequenos barcos que vagueiam a fazer pela vida (às vezes dou por mim a tentar alcançar os encantos da misteriosa presença de Kianda - a sereia que dizem andar por ali a proteger a cidade).

A envolvência histórica da Fortaleza  de S. Miguel (lindo monumento nacional com uma vista de pôr-do-sol vigoroso; foi quartel-general das Forças Armadas Portuguesas e Angolanas), o refrescante verde dos jardins e os imponentes prédios que emergem da marginal, são outras atracções que podemos alcançar na baía.

Não  tivemos tempo de andar muito: Posso tirar uma fotografia com a sua filha? 

A atenção fugiu-me para a menina pequenina que aquela voz trazia pela mão. Era linda: as trancinhas tilintavam, levemente, no movimento das bolinhas e missangas arco-íris que lhe decoravam o penteado; os fios negros espevitados dançavam nas melodias dos seus balanços animados. Daquela expressão ternurenta e cativante pareciam emergir umas preciosas esmeraldas -  tal o brilho e fulgor que aqueles olhos, radiantes, projectavam (e enfeitiçavam).

A voz amável do pai fez-me voltar à pergunta que me tinha feito parar: Podemos tirá?

Uma Foto?... Hesitei: precisava de tempo para pensar. Estava confusa; contudo a expressão alegre, livre e bem-disposta, com que me abordou aquela voz branda, desarmou uma qualquer hesitação da minha parte. E de repente fiquei a achar que o meu espanto-hesitação destoava dos olhos limpos que tinha à minha espera.

Pode...

(não havia lugar para mais interrogações: a certeza dos seus sorrisos humildes, destemidos e honestos superavam o que havia para hesitar).

Deixei que as respostas me chegassem através das emoções que em mim circulavam, segundo a segundo.

À M, que aguardava pela minha reacção (bem espantada), disse-lhe que estava tudo bem; e ela foi com eles..

Era uma moldura bem colorida de risos que, acreditem, são difíceis de alcançar; entram por nós dentro e arrematam tudo, num encontro - livre, raro e mágico - entre pessoas.. Foi um abalo e uma surpresa incapazes de se transferirem em palavras.. Nunca tinha experimentado uma vivência destas (obrigada povo de Angola!).

A M. nem precisou de olhar para mim para continuar a posar para mais fotos com o restante grupo deste meu novo amigo que trazia a menina encantadora pela mão; de sorriso meio tímido e em cima do novo hover board, que ansiava experimentar (teve de ficar para depois), também a M. se deixava levar pelo ambiente de troca de sorrisos.

Os skates são destas últimas novidades: eléctricos, andam com o impulso do corpo e dão uma volta de 360.º; mas a verdade que fui constatando é que olhavam, até achavam piada às luzes, mas não ligavam nenhuma. Não era isso que lhes interessava: era só mesmo eles e nós.. Apenas isso e nada mais.

Vislumbrei o mesmo quadro com o meu outro filho D., mais à frente, acompanhado pelo pai. Estava rodeado pelos mesmos risos e expressões de telemóveis em punho a captar as melhores imagens.

Enquanto ali permanecia imóvel, suspensa, arrepiada, perplexa, a não entender nada e a sentir tudo, vi-o a correr na minha direcção com uma alegria meio alvoraçada:

Venham! Ela está aqui! Mádrinha! Você está à fugi.

Fugir de quê?, perguntei. Dá foto, mádrinha. Você não qué tirá!

Claro que posso tirar... (Voltei, por segundos, ao espanto inicial; queriam tirar uma foto, desta vez, comigo. Não esperava. Eu não tinha skate, estava com um vestido de praia e de havaianas, sem maquilhagem e com o cabelo bem desalinhado pelo impacto do bafo quente e húmido que ali circulava; era apenas eu, despenteada; e não me conheciam...)

Fiz o meu maior sorriso e quando dei por mim estava, já, no plano da nobre emoção da sinceridade espontânea e livre que nos permite usufruir o melhor dos outros; não pensando em mais nada! (Bem valioso foi o que vi e senti..)

Váleu, Mádrinha! Vou cólocá no Facebook! Afirmou o meu novo amigo que se mostrava bem feliz e orgulhoso da sua foto. 

Chegou, depois, uma mulher, que parecia ter a minha idade: Posso tirá também? Claro! Venha. Olhou-me bem fundo, comovida, quando a toquei e abracei para a foto - fazendo-a libertar, também, o seu (a)braço para mim.

Vêim também, filha! Vêim prá´qui!  

Seguiu-se então uma segunda foto com ela e a filha; depois com ela e a filha e o marido; e com o amigo que tirou as fotos no telemóvel dela... Era uma euforia que dava gosto agarrar.

A confusão, a surpresa e o alvoroço das emoções que encontrei na entrada da Baía de Luanda, no meu primeiro Natal, em Angola, constituem uma felicidade suprema.

Antevi a solução na boa vontade - profunda e verdadeira – das pessoas que se encontram e se olham sem barreiras. Podia ter seguido o meu caminho sem me incomodar. Era só ter respondido que não podia tirar aquela foto e continuaríamos o nosso passeio sem interrupções e incómodos.

Porém, reagi aos impulsos de um coração grato e aberto à incógnita do tempo da vida.

Resisti à vontade, que todos temos, de entender e classificar com a própria medida e realidade.

Enfrentei a facilidade da indiferença e abracei a magnitude da humildade.

Sem esperar, estes sorrisos das pessoas de Angola ampliaram o significado do nosso Natal, em África, da nossa estadia, em Angola. Tinha de o partilhar e dar voz à experiência que conseguimos viver num lugar que à partida não tem nada e afinal pode ter muito. Esta lição eu já sabia mas Angola tem-na confirmado na sua grande escala.

Devemos conseguir descobrir a alegria e a boa vontade - sublime, generosa e por vezes encoberta - das pessoas que nos rodeiam – seja nas de Angola, de África, no porteiro do prédio, no colega chato, no funcionário trombudo, nas pessoas que passam por nós.. Estamos cá para isso. Entendo que este é um dos grandes desígnios e desafios na vida.

Os reflexos mais comuns (de julgar e entender muito rápido) embaciam o melhor que temos na vida: aproveitar os outros através do bem que lhes podemos dar e através do bem que podemos descobrir e explorar. Olha-se para o óbvio e julgam-se os outros para nos desculparmos a nós próprios.

Estávamos em Luanda e era Natal. Recebemos o melhor presente. Um presente que adicionou as personagens das fotos ao nosso desenho de vida, à nossa estadia em Angola.

Tenho este episódio gravado em mim desde então, mas só agora o consegui traduzir em palavras. Com a confusão e surpresa daqueles momentos não me lembrei de o registar em imagens.

Pensei regressar à baía mas já não era Natal, não havia tanta gente e estava meio sem jeito de pedir a alguém, que não conhecia de lado nenhum, para tirar uma foto comigo, só porque sim.

Voltei lá num Domingo normal e decidi abordar uma família que me saltou à vista pelos bonitos padrões africanos que trajavam, enquanto passeavam tranquilamente. Era agora a minha vez e confesso que não sabia bem o que lhes dizer. Não sabia se seria capaz. Novas hesitações me saltaram..

Lembrei-me das expressões, abri o meu sorriso e com a melhor boa vontade segui o meu instinto (coração). Tive outra surpresa: não foi preciso explicar nada. Obtive a melhor resposta que está registada na foto que ilustra esta crónica.

É o mesmo presente que recebemos no passeio na Baía de Luanda, no dia de Natal..

É veloz e invisível. Conseguem vê-lo?

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